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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

francesinhas, chá verde e o ET


A cidade da Póvoa de Varzim deve ser nesta altura, Janeiro de 2008, a capital da escultura.
Se não vier a ser ultrapassada por este novo município, a Trofa, que está a cumprir à risca os mandamentos do "Guia Autárquico" de Valentim Loureiro, que já vai na sua vigésima edição esgotada, ou seja, com o despejo de verbas para o clube local, o Trofense, com o intuito de obter resultados imediatos.
De facto, receia-se que a Trofa possa ultrapassar a Póvoa de Varzim no número de rotundas e, obviamente, nas respectivas esculturas de qualidade artística duvidosa.
Tudo isto vem a propósito da reclamação que uma dessas escultoras, que espalhou arte surrealista pela cidade, com três esculturas de sua autoria, apresentou contra a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.
De seu nome Margarida Santos, a artista veio dizer que há muito pouca escultura em Gaia, insurgindo-se desta forma contra a política cultural de Menezes.
E mais à frente vem dizer que só na Póvoa de Varzim tem três esculturas de grande porte. Leia tudo AQUI.
Não sei se o E.T., que o leitor vê na foto, é da sua autoria.
O que sei é que quem o encomendou deveria ser obrigado a pagar aquela merda do seu próprio bolso.
Seria o castigo para o péssimo gosto artístico que se espalha paulatinamente por toda a cidade.
Incomodado com isto, mais incomodado fiquei quando a minha mulher me diz que estava com saudades de comer uma francesinha no Guarda-Sol, porque desde solteira que não põe a boca nessa iguaria, que o Azeiteiro do vereador, que agora tem a mania que é o Nespresso, anda aí a recomendar aos já estragados poveiros, através da suja campanha “Sabores Poveiros”.
Contrariado lá fui.
Chefe! Duas francesinhas especiais. Gritei eu no meio daquela barafunda que é o Guarda-Sol.
O Guarda-Sol é o baluarte da democracia poveira.
Desde poetas malditos a políticos medíocres, passando por músicos e jornalistas de segunda divisão, de tudo lá se encontra. Tudo fala alto.
Quando as francesinhas chegaram, quase que morria só de olhar, com aquele molho meio laranja, meio vermelho a borbulhar, e o queijo derretido misturado com salsicha ou linguiça, e o fiambre, e depois lembrei-me que o Guarda-Sol tinha por hábito fazer as francesinhas à segunda-feira e guardá-las para toda a semana, servindo ao cliente com mais apetrechos do que os normais, conforme a cara era ou não conhecida.
Lá fui comendo.
No fim estava com uma pança que nem me podia levantar.
Virei-me para a minha mulher e disse-lhe: tão pouca merda deixa um gajo inchado. Fosda-se!
Lá estás tu. Disse ela.
Nesse dia à noite nem dormi, indisposto com a puta da francesinha.
Ia para a casa de banho e só saia coisas de cor laranja.Um hora depois, outra vez.
Um hálito azedo apoderou-se da minha cuidada boca.
Filhos da puta envenenaram-me com polónio, como fizeram ao Litvinenko.
Nem vontade de dar um beijo à minha mulher senti.
Aliás, estive quase para a pôr fora de casa por tão brilhante ideia de me levar a comer francesinhas.
Precisei dela, no entanto, para me transportar ao hospital.
Sempre tive o hospital da Póvoa de Varzim como um corredor da morte.
Ali só se vêm ciganos e gente humilde.
Sempre que fui ao Hospital nunca vi o Sr. Doutor, o Sr. Engenheiro ou o Sr. Arquitecto.
É o Hospital do povo.
AGUARDE A SUA VEZ
Diz à entrada.
Está porreiro, disse eu para a minha mulher.
Fiz a inscrição. Cinco minutos depois já ouvia o meu nome:
TONY VIEIRA
Toda a gente se levantou e veio pedir a bênção.
O povo sabe reconhecer aqueles que o ajudam.
Fui chamado a uma sala onde estava uma tipa de bata branca.
Antão o que é que o senhor tem home? Perguntou ela.
Estou com dores no estômago.
Isso num será merdas esquecidas?
Está feita com os filhos da puta. Pensei eu.
Ora vai levar aqui a fita azul e aguarda que o chamem.
Ela ainda olhou para a laranja. Mal eu sabia que era a melhor.
Passa uma hora e nada. Passa outra hora e nada.
Passa um gajo de bata branca e eu dou um berro:
Oh Chefe! Isto num anda caralho?
Tem que esperar pela sua vez. Isto é a triagem de Manchester.
Fosda-se! Lembrei-me logo do outro trengo com a história de Milão e Tóquio.
Depois é que percebi:
Os hospitais não têm meios humanos suficientes, não têm instalações condignas, tratam as pessoas como se fossem números, os médicos só querem ir para o bar namorar as enfermeiras, as quais andam sem soutien e sem calcinhas para sentirem menos cócegas.Vai daí importam um modelo de atendimento que só faz sentido em hospitais de nível internacional e com um sistema de saúde super evoluído.
Esta merda num é Milão nem Tóquio pá! Gritei eu.
Quando fui atendido, quatro horas depois, já estava cheio de fome.
Apareceu-me um tipo que disse ser médico, mas para mim parecia um tasqueiro do Paulino.
Tiraste o curso no 25 de Abril, pensei eu, face ao bem avantajado bigode típico daquela geração que acabou os respectivos cursos sem fazer qualquer exame, que se intitularam durante longos anos “homens de Abril” e agora roubam à desgarrada o próprio povo.
Cambada de filhos da puta! Pensei eu.
Tony pá! Vais tomar chá verde duas vezes ao dia. Disse ele depois de me ter auscultado e mandado tossir.
Melhor o pensou, melhor o fez. Pega numa receita e escreve umas palavras que ninguém conseguia entender. À médico.
Dirigi-me à farmácia de serviço e mostrei ao primaço que estava no balcão.
Ele leu. Leu. Voltou a ler.
Tony isto é chá verde meu. Tens que comprar no supermercado.
Malandragem filha da puta! Pensei eu.
No dia seguinte fui novamente ao Guarda-Sol.
Francesinha Senhor Tony? Disse o mesmo empregado.
Francesinha é a tua prima.Traz aí dois chás verdes, antes que te foda o capacete.
Veio o chá verde, provei e perguntei quanto era.
70 cêntimos. Respondeu o gajo.
O quê pá? Então uma caixa de 12 saquetas custa um euro.
Mas tem que pagar a água que encareceu este ano.
Que água lambisgóia? A água parece coca-cola e está cheia de soda cáustica pá.
É de tabela senhor Tony.
Lá paguei.
Fui ao supermercado, com a receita, e comprei o chá verde.
A moça até se riu quando mostrei o que me foi receitado.
Sou da geração de Chernobyl!
Estou condenado a morrer envenenado.
Tony Vieira

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